A 6 de Setembro de 2025 o Grupo Cultural Aquae Flaviae organizou mais uma Visita Guiada com passagem por Salto e com destaque muito especial pelas Minas da Borralha.
Em Salto ouvimos várias histórias sobre a origem do nome e da povoação. Ficou o aviso de que muitas são lendas ou teorias locais, sem consenso histórico, o que lhes dá ainda mais encanto. A Igreja das Minas, inaugurada a 10 de junho de 1956, nasceu depois de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima ter parado por estas terras, o que a comunidade interpretou como um sinal. Foi construída em cerca de dois anos, com muita participação popular. Projetada por um engenheiro de minas, sem a torre lateral podia bem passar por uma oficina ou um armazém, o que diz muito sobre a terra.
Passou-se no Museu etnográfico, antiga Casa do Capitão, espaço etnográfico reúne objetos doados ou emprestados pela população: máquinas agrícolas, equipamentos de tração animal e ferramentas de ofícios quase desaparecidos. O que mais me marcou foi o pisão, que usava a força da água para mover grandes martelos de madeira e apisoar o burel, o tecido grosso que protegia do frio e da chuva. Curiosamente, o edifício já foi quartel de bombeiros.
O Ecomuseu de Barroso — Minas da Borralha preserva máquinas e edifícios, mas o essencial são as memórias das pessoas. Há quem entre numa antiga sala de dança ou numa escola e comece logo a contar histórias. Os objetos doados vêm sempre acompanhados da sua história, como na exposição Objetos com histórias.
No início do século XX, onde hoje está a Borralha havia pouco mais do que baldios, campos e pastagens. Domingos Alves Borralha, que tinha trabalhado nas minas de Coelhoso, em Bragança, reconheceu na sua terra pedras parecidas com as de lá. A ideia foi recebida com descrença, mas um engenheiro francês confirmou o minério e, em 1902, a concessão foi registada.
Depois foi tudo muito rápido. Logo no primeiro ano produziram-se cerca de 70 toneladas de volfrâmio. Em 1904 a aldeia já tinha eletricidade. Em 1918 era a principal mina de volfrâmio do país. No auge, nos anos 40 e 50, impulsionada pela Segunda Guerra Mundial e pela Guerra da Coreia, empregava mais de 2.000 trabalhadores e chegou a ter cerca de 5.600 habitantes. Vinha gente de Montalegre, de Cabeceiras de Basto, do Minho. Era uma aldeia criada pelo trabalho, e quando o trabalho acabou, grande parte da população foi-se embora.
Com o volfrâmio a valer uma fortuna, nasceu o contrabando. Em 1941, um quilo podia chegar aos 1.000 escudos, quando um bom salário andava pelos 20 a 30. Os "apanhistas" deviam entregar todo o minério à empresa, mas muitos preferiam vendê-lo no mercado clandestino, por caminhos noturnos que iam dar à Galiza-
A empresa criou uma verdadeira comunidade, com bairros operários, escola, escola profissional, posto médico com médico permanente e eletricidade gratuita. Havia adiantamentos de salário, presentes de Natal para os filhos dos trabalhadores e leite para os mineiros, na crença (hoje sabemos que errada) de que limpava os pulmões.
Havia também vida social. Um antigo edifício foi padaria, escola profissional e, nos anos 60, o primeiro cinema da região, além de palco de teatro, filarmónica, bailes e discoteca. Jogava-se futebol e a Borralha chegou a ter três campos de basquetebol, numa altura em que a modalidade era pouco conhecida em Portugal.
O Ecomuseu e a Igreja das Minas
O Ecomuseu de Barroso — Minas da Borralha preserva máquinas e edifícios, mas o essencial são as memórias das pessoas. Há quem entre numa antiga sala de dança ou numa escola e comece logo a contar histórias. Os objetos doados vêm sempre acompanhados da sua história, como na exposição Objetos com histórias.
Há um projeto para reativar a exploração de volfrâmio e minerais associados. Convém não o confundir com os projetos de lítio noutras zonas do Barroso, que são empresas, minerais e métodos diferentes. Na Borralha a exploração seria subterrânea. Apontou-se 2027 como possível arranque, mas como previsão, não como certeza. O estudo de impacto ambiental fala de cerca de 160 empregos diretos.
Segundo o testemunho que ouvimos, a perceção em Salto e na Borralha é maioritariamente favorável, muito por causa da identidade mineira e da memória do que a mina trouxe. Mas há dúvidas legítimas sobre a água, o tratamento das águas da exploração, os impactos ambientais, os impostos que ficam na região e a independência dos estudos. Perguntas que caberão aos promotores e às entidades competentes responder.
Também não se pode esquecer o passivo ambiental. A exploração decorreu numa época com outras preocupações, e as escombreiras e as antigas lavarias continuam a marcar a paisagem. Ainda assim, mais de 30 anos depois do encerramento, a natureza está a recuperar e a fauna regressou.
A Borralha é muito mais do que um antigo complexo mineiro. É uma paisagem de memória, feita de galerias e escombreiras, mas também de casas, escola, cinema, igreja, futebol, bailes e das histórias de quem ali viveu.
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| Amostra de volfrâmio já tratada |
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| Vestígios de um Grupo Desportivo então existente |
Lamartine Dias





















































